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sexta-feira, 28 de dezembro de 2007




Poema do gato
Quem há-de abrir a porta ao gato quando eu morrer?
Sempre que pode foge prá rua, cheira o passeio e volta pra trás, mas ao defrontar-se com a porta fechada (pobre do gato!) mia com raiva desesperada. Deixo-o sofrer que o sofrimento tem sua paga, e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre pra mim como acorre a mulher aos braços do amante. Pego-lhe ao colo e acaricio-o num gesto lento, vagarosamente, do alto da cabeça até ao fim da cauda. Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, olhos semi-cerrados, em êxtase, ronronando.
Repito a festa, vagarosamente. do alto da cabeça até ao fim da cauda. Ele aperta as maxilas, cerra os olhos, abre as narinas. e rosna. Rosna, deliquescente, abraça-me e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse quem lhe abriria a porta quando eu morresse?

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